Carta de apoio às mulheres da Prainha do Canto Verde

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O Fórum Cearense de Mulheres manifesta solidariedade e apoio às mulheres da Prainha do Canto Verde, vítimas de violência sexual, assim como às suas famílias e companheiros. Em especial nos solidarizamos com uma companheira que, junto com seu companheiro, está sendo perseguida e ameaçada por buscar justiça diante da violência sexual que sofreu.

Sabemos como é difícil para as mulheres romper com o silêncio sobre a violência, numa sociedade que costuma ser a favor de agressores e contra as vítimas. A tendência das pessoas machistas (homens e mulheres) e dos estupradores é jogar a culpa nas mulheres, aumentando ainda mais seu sofrimento. Por isso, temos que ser solidárias, pois estamos todas nós vulnerabilizadas por essa cultura da violência machista.

Sabemos, ainda, que meninas, adolescentes e jovens são constantemente violadas por parentes e conhecidos e que muitas silenciam por medo e vergonha, ainda mais quando os agressores são pessoas de poder nas famílias ou nas comunidades. Essa situação precisa ser superada. Forçar mulheres, crianças e adolescentes a ter relações sexuais, mesmo que seja “apenas” uma tentativa, CONTRA A VONTADE DELAS, É CRIME!”.

Além disso, é importante saber que mulheres que foram abusadas sexualmente quando eram meninas e adolescentes, ainda podem denunciar o agressor.

Precisamos também enfrentar a violência e arrogância de certos homens que em público se fingem de bons, amigos e “tementes a Deus”, mas em casa ou às escondidas violentam e oprimem mulheres e meninas.

Nesse caso da Prainha do Canto Verde, o homem acusado de violentar mulheres é o mesmo que favorece um empresário, que em conflito com a comunidade, semeia discórdia e violência, retirando-lhe o direito a uma vida pacífica.

Como movimento de mulheres organizadas esperamos que as autoridades públicas estabeleçam rigorosa investigação e punição tanto para o acusado diretamente, quanto para aqueles que venham a acobertá-lo ou pressionar e deslegitimar a voz e as denúncias das vítimas. Pois ao agir assim, passam a ser também agressores.

Por último, também nos solidarizamos com aquelas mulheres que estão silenciadas pela vergonha, pela pressão de terceiros e pelo medo de serem mais violentadas. Que elas saibam que podem contar conosco. E para as meninas e adolescentes que tenham sido molestadas, nos colocamos à disposição para ajudar nos devidos procedimentos de denúncia e proteção.

Estamos vigilantes e atentas aos resultados desse processo e sempre dispostas a agir (e reagir) na defesa dos direitos das mulheres.

Fortaleza, 09 de Setembro de 2013

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Estátua de criança negra no Pão de Açúcar mobiliza Articulação de Mulheres Negras Brasileiras

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Em carta, organizações  filiadas da  Articulação de Organizações de  Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) manifestam  indignação referente a estátua de um menino negro, com grilhões nos pés, exposta no mercado Pão de Açucar, no Bairro Vila Romana em São Paulo. A AMNB exige que o Grupo Pão de Açúcar faça uma retratação pública sobre o fato. Abaixo o documento na íntegra*.

Ao Sr. Enéas César Pestana Neto

Diretor Presidente

Grupo Pão de Açúcar

Senhor Diretor,

A Articulação de Organizações de Mulheres Negras (AMNB) é uma rede de organizações de mulheres negras, constituída atualmente por 28 organizações distribuídas por todas as Regiões do Brasil. Nossa missão está calcada no enfrentamento ao racismo e das desigualdades econômicas e sociais deste País. Segundo dados levantados pela  Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (PNAD, 2011)), o Brasil tem cerca de 192 milhões de brasileiros, destes, 51% se auto-declararam negros e negras, o que faz  do Brasil, o pais com a segunda maior população de negros  de todo mundo – 97 milhões,  atrás apenas da Nigéria, com aproximadamente 160 milhões.

A identidade de um povo é construída a partir de suas relações sociais. O estado brasileiro, escravista durante mais de trezentos anos, deixou marcas extremamente fortes nesta população, marcas estas que são reforçadas pela manutenção de atitudes como essa. Nos deixa extremamente atônitas o fato de tomarmos conhecimento da estátua exposta decorativamente no Supermercado Pão de Açúcar, no bairro Vila Romana, na cidade de São Paulo, que retrata uma criança negra com grilhões nos pés portando uma cesta de pães (em anexo).

Queremos chamar atenção para dois aspectos: (1) Esta imagem contribui para a manutenção do racismo, pois é a materialização do inconsciente coletivo que coloca o negro sempre num lugar social e simbólico, de subalternidade; não é por acaso que esse menino continua com os grilhões nos pés, símbolo de escravização. (2)  Ela, também, compactua e autoriza, de forma subliminar, o trabalho infantil, que no Brasil é realizado por uma maioria de crianças negras.

Outro grande prejuízo é o impacto negativo da imagem para a autoestima das crianças negras e a construção de uma referencia positiva de si, que as leve a sentirem-se em iguais condições na companhia das crianças brancas. Como vocês acham que se sentem as crianças negras que frequentam esta loja?

Nós mulheres negras e indígenas somos tratadas, sob a escravização e o racismo, como objetos, vulneráveis a todos os tipos de violência pessoal, estrutural. Conhecemos, portanto, a profunda dor das violências que nos atingem, e temos lutado, ao longo de todos os séculos da história do Brasil, por justiça e reparação, pelo o direito de viver a cidadania plena. Neste sentido que nos dirigimos ao Senhor, Diretor Presidente do Grupo Pão de Açúcar, Sr. Enéas Neto, para dizer que estamos esperando deste Grupo uma retratação pública, mesmo tendo retirado a estátua colocada na loja e reconhecido o ato como fortalecedor do racismo no Brasil.
Afirmamos a nossa disponibilidade para contribuir com essa instituição, na construção de uma ação reparadora que sensibilize clientes e trabalhadores, em toda sua rede, na direção de um país onde a diferença seja compreendida como um valor positivo.
Sem mais,
Simone Cruz

Secretária Executiva AMNB
Organizações Integrantes da AMNB:
ACMUN – Associação Cultural de Mulheres Negras – RS
BAMIDELÊ – Organização de Mulheres Negras na Paraíba – PB
CACES – Centro de Atividades Culturais, Econômicas e Sociais – RJ
Casa Laudelina de Campos Mello – SP
Casa da Mulher Catarina – SC
CEDENPA – Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará – PA
CRIOLA – Organização de Mulheres Negras – RJ
CONAQ – Coordenação Nacional  de Articulação das Comunidades Quilombolas – MG
GELEDÉS – Instituto da Mulher Negra – SP
Grupo de Mulheres Negras Felipa de Sousa – RJ
Grupo de Mulheres Negras Mãe Andressa  – MA
Grupo de Mulheres Negras Malunga – GO
IMENA – Instituto de Mulheres Negras do AP
INEGRA – Instituto Negra do Ceará – CE
Instituto AMMA Psique e Negritude – SP
IROHIN – DF
KILOMBO – Organização  Negra do Rio Grande do Norte – RN
Maria Mulher – Organização de Mulheres Negras – RS
Mulheres em União – Centro de Apoio e Defesa dos Direitos da Mulher – MG
NZINGA – Coletivo de Mulheres Negras de Belo Horizonte
Observatório Negro – PE
ODARA – Instituto da Mulher Negra – BA
OMIN – Organização de Mulheres Negras Maria do Egito – SE
Rede Mulheres Negras do Paraná – PR
Uiala Mukaji – Sociedade das Mulheres Negras de Pernambuco – PE

 

* Extraído do site da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras.

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Inegra e AMNB lançam livro “Mulheres Negras na Primeira Pessoa”, em Fortaleza.

Capa Mulheres Negras na Primeira Pessoa - NOVA VERSAO 2

Fortaleza será mais uma cidade a receber o lançamento da publicação “Mulheres Negras na primeira pessoa”. O momento será realizado no Museu do Ceará, no dia 10 de Abril (quarta) a partir das 18h30 com exibição do curta Negas de Pano, e apresentação cultural no encerramento. Serão oferecidos 40 exemplares prioritariamente para coletivos atuantes na temática étnico racial e de gênero. O Instituto Negra do Ceará – Inegra foi uma das organizações participantes da elaboração da obra contando a história de Antônia Lopes, ou apenas Toinha, mulher negra, professora, quilombola e liderança da comunidade de Águas Pretas, situada no município de Tururu, Ceará. E foi lá que o  Inegra apresentou em primeira mão a obra que teve uma de suas moradoras  como protagonista.  A ocasião aconteceu no dia 09 de março com a presença de lideranças das comunidades quilombolas de Conceição dos Caetanos e Alto Alegre, que aproveitaram o momento e trocaram experiências e saberes.

A versão impressa da publicação foi uma grande vitória, pois até pouco tempo o livro estava disponível apenas na versão online. Algumas cidades já realizaram seus lançamentos locais e a expectativa é de que ele seja distribuído em todo o território nacional com o apoio das 28 organizações que compõem hoje a Articulação de Mulheres Negras Brasileiras – AMNB.

Conheça a publicação

A obra organizada por Jurema Werneck, Nilza Iraci e Simone Cruz reúne histórias reais de 20 mulheres negras de nove estados brasileiros (Rio Grande do Sul, Paraíba, São Paulo, Pará, Rio de Janeiro, Amapá, Ceará, Paraná e Goiás). Em cada relato de vida, trajetórias regadas de muita força, coragem, persistência e superação, sentimentos que refletem a luta cotidiana das mulheres negras.

Mulheres negras na primeira pessoa é fruto de uma das ações propostas no projeto: “Construindo a Equidade: monitoramento de políticas públicas para a superação das desigualdades de gênero e raça para as mulheres negras”, desenvolvido pela AMNB, entidade a qual o Instituto Negra do Ceará – INEGRA é membro. A AMNB realizou o lançamento virtual no dia 10 de dezembro de 2012 e logo a publicação foi sucesso nas redes sociais. Caso você não tenha a chance de receber a versão impressa, a obra está disponível para donwload gratuitamente.

Acesse o texto Aqui

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A vida de uma mulher equivale a uma lata de manteiga?

Por Francisca Sena* 

Em 2006, o noticiário divulgou o julgamento de uma jovem de 19 anos, empregada doméstica, por ter tentado roubar um pote de manteiga num comércio em São Paulo. O roubo foi evitado pelo dono do estabelecimento. A jovem foi condenada a 4 anos de prisão, em regime semi-aberto.

Em fevereiro de 2008, Antonio Francisco Araújo da Silva cometeu um grave crime em Fortaleza. Espancou todo o corpo e deu marteladas na cabeça da mulher com quem ele era casado:Francisca das Chagas Oliveira (conhecida como Fran), natural de Ubajara, interior do Ceará. Fran, depois de muito machucada, inclusive com afundamento da caixa craniana, desmaiou em meio a tamanha agressividade. O desmaio fez o agressor acreditar que ela havia morrido e por isso ele parou com seu ataque de fúria. Fran sobreviveu, mas em decorrência desse crime brutal, até hoje tem sequelas que alteraram radicalmente a sua vida: toma medicamentos, vive submetida a tratamento psicológico, perdeu 50% da audição e sofre com dores no braço direito, entre outras. A dor e o transtorno na família de Fran também não podem ser esquecidos.

Diante da impossibilidade de apagar esse crime na história de sua vida, ao longo desses 5 anos, familiares e amigas/os da Fran, movimentos feministas – em especial o Movimento Ibiapabano de Mulheres – MIM, vem clamando por justiça, na tentativa desse crime não ficar impune. Esse sentimento foi alimentado ainda mais pelo fato do acusado não ter ficado preso um dia sequer pelo crime cometido.

Ontem, 27/02, finalmente Antonio Silva foi julgado no Fórum Clóvis Bevilaqua, em Fortaleza. Ao final do julgamento, veio a sentença: 4 anos de condenação em regime aberto. O argumento absurdo de que o agressor não tem antecedentes criminais, funcionou mais uma vez para abrandar a pena.

A condenação do Antonio Francisco Araujo da Silva foi mais amena do que a da jovem mulher que tentou roubar uma lata de manteiga, alegadamente para ajudar aliviar a fome do seu filho. Isso nos faz concluir que a vida de uma mulher vale menos do que uma lata de manteiga. Como pode haver uma mesma punição para dois casos tão díspares, quando o primeiro relaciona-se com a possível violação de uma mercadoria e o outro caso, tem relação com a violação efetiva da vida de uma mulher?

Enquanto ainda estamos inconformadas com a sentença, permanece em nós os sentimentos ruins provocados durante o julgamento, ao rememorar os fatos da violência e tocar novamente nas feridas. Tudo isso diante do agressor, frio, calculista. Há quem o classifique como “monstro”, mas queremos considerá-lo na sua condição humana e por isso mesmo, tem a consciência de que a sua presença no mundo tem uma dimensão ética, que o torna capaz de tomar decisões, de fazer escolhas, de prever as consequências dos seus atos, de viver em relação com suas/seus semelhantes. Não, ele não é monstro! É um homem, adulto, machista, que certamente aprendeu a acreditar ser o dono da vida das mulheres com quem se relaciona, que usa da força e da violência contra as mulheres para impor suas vontades e interesses, que estabelece uma relação desigual com uma mulher e se acha no direito de maltratá-la, de espancá-la e de tentar tirar sua vida covardemente, que usa a violência como recurso para resolução de conflitos. Temos que reconhecer que esse comportamento é tipicamente humano. Somente o considerando humano, é que podemos querer que ele assuma a consequência dos seus atos, que ele seja punido por ter cometido um grave crime de violência contra a mulher, que podemos pressionar a justiça para retirar do criminoso o direito de ir e vir livremente. Mas se um crime desta gravidade não é devidamente punido, fica um péssimo exemplo para outros homens que são ou que poderão ser violentos com as mulheres que estão em volta deles.

E o que tudo isso tem a ver com cada uma/um de nós? Qual a nossa responsabilidade em desconstruir as bases de uma sociedade marcadamente machista? Quando ousaremos educar nossas crianças para a igualdade e o respeito entre mulheres e homens? Que mudanças no cotidiano podemos fazer para que outros Antônios não sejam formados e outras Franciscas não sejam vítimas de violência sexista? Quando teremos a ousadia de semear outros valores para nossos meninos em formação? Quando deixaremos de presentear nossos filhos com revólveres e espadas de brinquedo, para que eles aprendam desde cedo a exercitar a violência? Quando exigiremos que a justiça brasileira não amenize os crimes de violência contra as mulheres, sob o pífio argumento de que o homem não tem antecedentes criminais? Até quando a violência contra as mulheres?

A violência sofrida pela Fran nos enche de indignação! E nossa indignação é porque esta sentença deixa em nós o sabor de impunidade; porque certamente este homem não cumprirá nem metade desta pena; porque ele permanecerá solto representando uma ameaça à vida de Fran, de sua família e também de outras mulheres que se aproximarem dele; porque a justiça é cega para os crimes cometidos contra as mulheres; porque esse crime não é isolado, mas engrossa as estatísticas da marca de 1 bilhão de mulheres que sofre com a violência em todo o mundo.

Mas esta indignação, aliada ao desejo de justiça, também nos mobiliza. Em nome delas continuaremos a ir pras ruas, a levantar nossas bandeiras, a lutar pelo fim da violência contra as mulheres, a tocar tambores denunciando as opressões e, sobretudo, a continuar lutando pela defesa, efetivação e ampliação dos direitos das mulheres.

Enquanto houver injustiça, sempre haverá luta!!!

 

* Militante do Instituto Negra do Ceará e do Fórum Cearense de Mulheres

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Conservadorismo político em Fortaleza e o ataque machista e racista às mulheres.

Por Cris Faustino*

A nova Câmara de Vereadores de Fortaleza escolheu como seu presidente, para os próximos dois anos, o Vereador Walter Cavalcante, vinculado ao movimento Provida, grupo político ultraconservador, com forte viés moralista e religioso e que tem como uma de suas principais mobilizadoras nacionais, Lenise Garcia, também membro do grupo religioso internacional Opus Dei.

Atualmente, uma das pautas desse movimento é incidir junto ao poder legislativo (em suas diferentes instâncias), sobre as propostas de reforma no Código Penal que sinalizam avanços na descriminalização da prática do aborto e na consequente ampliação das possibilidades de acesso das mulheres aos serviços de saúde, de acordo com suas necessidades, como é o caso dos serviços públicos para o abortamento seguro. A principal meta do Provida é manter perseguidas e sujeitas à prisão, as mulheres que praticam aborto, negando-lhes o acesso àquilo que realmente necessitam: os serviços de saúde pública e de qualidade. Por motivos óbvios essa meta do Provida atenta principalmente contra as mulheres pobres e negras.

O presidente da Câmara e os vereadores, em pleno processo de transição para os mandatos 2013-2016, elevaram a cidade de Fortaleza a ícone do moralismo, da misoginia e perseguição às mulheres, impondo às suas cidadãs e cidadãos não só um ataque ao direito de ter direitos reprodutivos, mas também aos direitos de acesso à informação e igualdade no debate sobre a temática do aborto. Trata-se da aprovação, em 18 de Dezembro de 2012, do Projeto de Lei 0223/2012 que institui a Marcha pela Vida contra o Aborto no calendário oficial de eventos do Município de Fortaleza.

Desconsiderando e sonegando do debate público os graves problemas que a criminalização do aborto tem gerado para mulheres e meninas, o atual Presidente da câmara, que é o autor do projeto, assim como os vereadores que votaram a seu favor, assumiram os princípios religiosos e moralistas como base da discussão, e as ideias de grupos religiosos como as mais prioritárias no que se refere aos direitos reprodutivos. Instituíram a fé religiosa como determinadora de um tema tão importante para a democracia brasileira, que é o básico direito das pessoas de decidirem sobre seu processo reprodutivo.

Ironicamente o projeto propõe que a tal Marcha que defende a violência contra as mulheres que abortam (porque hostilizar e aprisionar pessoas de bem é violência hedionda e, no caso, violência coletiva contra um grupo específico), ocorra no mês de novembro, quando a cidade de Fortaleza e os movimentos de lutas por igualdade comemoram, no Brasil inteiro, dois importantes símbolos do esforço de superação das injustiças: o 20 de Novembro da Consciência Negra e o 25 de Novembro de Luta pelo Fim da Violência Contra as Mulheres. Ambas as datas são momentos importantes para que as mulheres negras e pobres se manifestem contra as opressões de que foram vítimas históricas: do estupro colonial, à violência doméstica, à perseguição e aprisionamento por decidir sobre sua própria reprodução. Os parlamentares não poderiam ser mais infelizes em relação às lutas das mulheres, portanto.

Um legislador/a que minimamente se preocupa em fazer de seu mandato uma prática democrática tem a obrigação de buscar compreender em sua complexidade os assuntos sobre os quais decide, não podendo tratar as necessidades e interesses dos grupos vulnerabilizados como moeda de troca e promoção política. A democracia exige que a prática política do legislativo se baseie no diálogo com a pluralidade da sociedade civil para decidir com a devida atenção sobre o enfrentamento dos problemas de ordem pública, que não podem ser submetidos aos interesses de nenhum grupo religioso, já que a fé religiosa é uma escolha pessoal e individual e não pode ser imposta à cidade, ao estado ou ao país por meio das instituições públicas. A estas últimas, cabe tão somente garantir que todos os credos e crenças possam ser exercidos pacificamente pelos indivíduos e pelos diferentes grupos religiosos. Eis aí uma lição básica de laicidade, assunto sobre o qual reina a quase absoluta ignorância dos nossos legisladores/as, para nossa imensa vergonha intelectual.

No mundo inteiro, no Brasil e em Fortaleza diferentes movimentos de mulheres, inclusive religiosas, defendem o aborto como um direito humano. Mas os vereadores de Fortaleza, no apagar das luzes de 2012, passaram ao largo do debate e favoreceram ideias cuja aplicabilidade resulta, explicitamente, em negação de direitos. De forma alienada, camuflaram o fato de que as maiores vítimas do moralismo religioso que perpassa o tema do aborto e a sua consequente criminalização são as mulheres, em especial as empobrecidas pelas desigualdades de classe social e de gênero e pela predominância do racismo na sociedade e nas instituições. Agiram, pois, desde uma perspectiva elitista, patriarcal e racista.

Instituir a Marcha contra o aborto como um evento do calendário institucional municipal significa, também, que os parlamentares negam às mulheres organizadas a condição de sujeito político do debate sobre a questão do aborto em Fortaleza e promovem o retrocesso de nossa cidade ao século XIII quando o sujeito religioso se impunha frente à inexistência do sujeito de direito. Ao naturalizar as ideias e ideais do Movimento Provida em relação aos direitos reprodutivos como os únicos “corretos”, o projeto atenta contra a democracia e fere o direito à igualdade política no debate sobre a questão. Os grupos que negam às mulheres o direito de ter ou não ter filhos e manda trancafiar na cadeia as praticantes (pobres) do aborto são legitimados como interlocutores privilegiados pelo poder legislativo municipal, tornando-o conivente com as violações dos direitos humanos das mulheres a despeito de todos os avanços que os movimentos sociais lograram nos últimos anos em relação à questão.

A criminalização do aborto é um dos mais graves problemas a ser enfrentado pela democracia brasileira. Primeiro porque a legislação vigente impõe às mulheres — que não podem parir em um determinado momento de sua vida e precisam interromper a gravidez — a clandestinidade, a ameaça de prisão, a vulnerabilidade a procedimentos inseguros, a exploração econômica, a hostilidade e os maus tratos nos serviços de saúde. Além disso, pelo fato da gravidez acontecer no corpo das mulheres, estas são as únicas atingidas, de fato, com a negação do direito ao aborto. Nota-se, pois, que a legislação que criminaliza o aborto, assim como os defensores dela, privilegia na vida real o outro sujeito da reprodução, os homens, sejam eles maridos, namorados, “ficantes”, abusadores ou estupradores. Nesse sentido, não se pode negar também o cunho explicitamente machista e misógino do PL 0223/2012. Infelizmente.

Mas não é só isso. Um dos maiores entraves no avanço dos direitos reprodutivos é a investida conservadora e reacionária sobre os processos políticos, onde a legítima demanda do direito se transforma, pela via do moralismo, em instrumento de pressão contra parlamentares e/ou candidatos, em moeda de troca no vai-e-vem dos interesses. É esse, por exemplo, o objetivo da campanha a Vida Depende de seu Voto, encabeçada pelo Provida. Esse processo faz com que os políticos ao invés de assumirem compromissos com os direitos das mulheres passem a fazer negociatas e a se submeterem à lógica ultraconservadora, reacionária, racista e machista, prejudicando enormemente o debate. É público e notório como os direitos reprodutivos são tratados nas campanhas políticas como fator de “desempate” das disputas. Frente à formação do senso comum, recheada com todas as heranças de dominação das mulheres, os políticos brasileiros, quase sempre preferem se omitir ou se posicionar de forma descomprometida com os reais problemas que enfrentamos com a criminalização do aborto. Essa é uma das mais graves heranças patriarcais que nossos “modernos” políticos não superaram.

Do ponto de vista da racionalidade dos direitos e da autonomia das pessoas, a legalização do aborto é questão óbvia e simples de se entender: as mulheres não devem ser obrigadas a parir, e tem plena capacidade de decidir sobre isso! Mas a atitude da Câmara de Vereadores de Fortaleza demonstrou não só a desinformação e o desconhecimento do nosso legislativo em relação às questões que envolvem o tema, mas também o descaso com que os problemas que afetam as mulheres na vida real, independente de serem as eleitoras a favor, ou não, da legalização do aborto. Não cabe ao legislativo sancionar o senso comum que prejudica os direitos humanos, mas estabelecer processos que colaborem com a transformação cultural que promova a inclusão e o bem estar da população. É assim, por exemplo, no enfrentamento ao racismo e à homofobia, que embora se configurem como sérias violências são partes da cultura brasileira e nem por isso o Estado pode permitir ou se omitir de enfrentar, dado o seu papel de zelar pelo bem de todos e todas. Infelizmente a maior parte dos políticos não entenderam ainda que a criminalização do aborto, independente de qualquer fé religiosa, está fortemente vinculada à cultura patriarcal e machista que violenta e nega historicamente os direitos humanos das mulheres, principalmente das mais vulnerabilizadas.

A ex-prefeita Luiziane Lins, infelizmente não se posicionou institucionalmente em relação ao PL do Provida. Fica na mão do atual prefeito, Roberto Cláudio, a obrigação de zelar pela igualdade no debate sobre as decisões públicas que dizem respeito à questão do aborto. Vetar, ou não, o PL 0223/2012 será a primeira atitude do governo municipal que refletirá o seu nível de comprometimento com as cidadãs de Fortaleza. E a todos (Prefeito e a, não tão nova, Câmara de Vereadores) é sempre bom lembrar que o cotidiano das eleitoras é o cotidiano das mulheres, e que somos nós que abortamos. É legítima nossa organização em defesa de nossas vidas e necessidades. As mulheres já enfrentaram e superaram muitas opressões, essa é apenas mais uma.

*Militante feminista do Fórum Cearense de Mulheres, Articulação de Mulheres Brasileiras e Instituto Negra do Ceará. 

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Mulheres negras na primeira pessoa!

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A articulação de Mulheres Negras Brasileiras lançou ontem, dia 10 de novembro de 2012, o livro “Mulheres Negras na primeira pessoa” com histórias reais de mulheres negras brasileiras representativas de nove estados brasileiros (Rio Grande do Sul, Paraíba, São Paulo, Pará, Rio de Janeiro, Amapá, Ceará, Paraná e Goiás). As narrativas são de mulheres negras quilombolas, nordestinas, sulistas, entre outras, urbanas ou não, cujas trajetórias sensibilizaram as organizações membros da AMNB, que as indicou para simbolizarem a luta das mulheres negras no Brasil. O resultado é um livro emocionante, repleto de histórias de lutas temperadas com energia, garra, amor, sabedoria e afeto. O Inegra participou da organização e sistematização dos dados de Antônia Lopes, a Toinha da comunidade quilombola Águas Pretas em Tururu/CE.

O livro “Mulheres negras na primeira pessoa”, organizado por Jurema Werneck, Nilza Iraci e Simone Cruz,  está disponível para download na página oficial da instituição:

http://www.amnb.org.br/admin/biblioteca/Mulheres%20Negras%20na%20primeira%20Pessoa%20site.pdf .

Além da versão virtual, está previsto o lançamento da versão impressa do livro “Mulheres negras na primeira pessoa” em algumas cidades brasileiras. A ideia é realizar os eventos com o apoio das 28 organizações filiadas à AMNB e distribuídas em todo o território nacional. A expectativa é começar a agenda de lançamentos a partir de janeiro de 2013.

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“Aos Brancos de Luta que não desejam ser racistas: notas de subsídios”

Por Cristiane Faustino*

Aproveitando o ensejo de novembro, gostaria de me dirigir diretamente às pessoas brancas que não desejam ser racistas e que guardam sinceros compromissos e fazem luta pelo fim das desigualdades. Deixo nítido que minhas palavras querem seguir o bom caminho da sinceridade. Antes que alguém pense, não há nenhuma ironia ou tentativa de culpabilização; me inspiro nos encontros que tenho tido com muita gente boa que condena o racismo e é antirracista. Então, modestamente, quero me propor a colaborar. Alerto também que não se trata de uma mera generalização: sou capaz de compreender os contextos e os diversos nos diversos. Mas entender e enfrentar desigualdades e discriminações exige, ironicamente, algum nível de generalização, pois de outro modo, as coisas podem passar batidas, ou por outra, ficar na conta das circunstâncias, onde tudo se justifica.

Primeiro, nós, as pessoas negras organizadas ou que na alegria ou no padecer alimentamos ou pretendemos alimentar nossa consciência negra, somos muito gratas às pessoas brancas que são antirracistas. Só falo de gratidão porque, dada a gravidade da situação de nossa gente, são nobres a solidariedade política e o repúdio ao racismo. No fundo mesmo, acho que isso não deve ser uma mera questão de bondade, mas uma obrigação histórica, um dever político e uma concepção ética libertária. A mim, pelo menos, isso parece condição fundamental para radicalizar na luta contra as opressões raciais. Mas vejam bem: nossa gratidão não nos amarra a vocês e nem pode nos ofuscar na crítica aos seus lugares de privilégios.

Nesse contexto, coisa importante para vocês, eu acho, é reconhecer, sem culpa, seus privilégios. Sejamos todxs solidárixs, mas não neguem que suas histórias também têm cor. É branca. Se vejam na sua cor. Claro, isso pode ser um tanto constrangedor para quem se julga no ápice dos sentidos revolucionários. Mas essa diferença é fundamental para nossas alianças. Assim saberemos que não somos iguais e que nossas diferenças estão também situadas no mundo racista. E vocês, num lugar de privilégio. E isso, minha gente, atinge todas as dimensões da vida, inclusive a política militante de esquerda. Então, vale aproveitar seus privilégios para colaborar na construção de outras possibilidades, inclusive a de fim dos privilégios.

Reparem que nós, pessoas negras de luta, nos tornamos “sobresobrecarregadas” porque temos que saber o que vocês sabem do pensamento e produção de esquerda; temos que saber o que nossos pares elaboram; temos que construir pensamentos e produzir sobre eles. Ou seja, temos que saber dos saberes que vocês, seus intelectuais e seus ancestrais produziram, e temos que saber dos nossos e construir uns tantos outros. E, pelo que tenho percebido, poucos de vocês gastam tempo estudando a produção negra antirracista. Bom, se vocês, como nós, têm pouco tempo, pelo menos têm podido escolher fazer assim, e para nós essa escolha não é possível. Pode ser também que achem que a produção negra não é teoria, mas diagnósticos em “causa própria”.

Compreendo suas preocupações científicas, mas compreendam também que as produções de vocês e seus pares, ao nos negarem e ao invisibilizarem seus privilégios, se tornam também uma defesa própria. Seus conhecimentos, suas epistemologias legitimadas e reconhecidas, em muito negligenciam sobre o racismo e, portanto, não o enfrentam devidamente. Então, temos mais problemas científicos e metodológicos do que pensamos…

Também nos sobrecarregamos nas lutas coletivas ampliadas, porque, por exemplo, embora tenhamos inimigos comuns, quando se trata do racismo precisamos construir o debate e nos enfrentar também com vocês. Às vezes acho que muitos se acostumaram a se achar libertários e cegaram quanto às suas próprias condições e relações com os outros, ou melhor, não veem que não se apartam delas ao querer mudar o mundo. A expressão popular “se enxergar” cabe bem aqui.

Tudo isso se eleva ao cubo, quando somos mulheres negras e conscientes disso.

É preciso também reconhecer que na maioria das vezes vocês não têm como perceber ou sentir o que a gente sente, e que, portanto, é compreensível que algumas opressões que por ventura denunciamos nos espaços onde estamos todos juntos não entrem nas suas cabeças. Vocês decerto se surpreendem, e podem até classificar como mania de perseguição ou incapacidade de compreender o contexto. Nesses casos, é muito importante acionar aquela confiança política básica para as alianças. E saibam: quase sempre há verdade nessas denúncias. É provável que sua condição racial nunca tenha aparecido como problema para vocês. Para nós tem sido. E essa diferença é o racismo “vivo e vívido”.

Se às vezes nosso jeito é meio desbocado, nossa postura é meio despojada, isso não significa que não somos sujeitos e não temos raciocínio lógico. Então, vez em quando é bom sair da sua própria lógica para entender o outro. E imaginem quantas vezes temos que sair das nossas, nos enquadrar nas suas, para sobreviver entre vocês! Mas que bom que é entre vocês, e posso dizer isso tranquilamente.

Caso nos percebam meio arrogantes, saibam que tivemos que construir nossa postura, senão nem vocês nem ninguém nos perceberiam. Mas a maioria de nós é do bem. Digo a maioria de nós, porque somos tão seres humanos quanto os outros. Então, entre nós há quem não seja bom.  No fundo, sequer podemos falar em ser humano “bom geral”. Óbvio que isso não é pela cor e raça. Talvez até seja, às vezes, porque o mundo tanto nos violenta que nos obrigamos a enfrentá-lo nos mesmos moldes! E é bom não esquecer que a violência racial dos brancos só assim o é por sua cor e raça. Não esqueçam nunca que quando nos referimos à cor e raça estamos, sobretudo, tratando de categorias políticas.

Isso também é para dizer que não precisam nos adotar. Somos perfeitamente capazes e não precisamos (pelo menos a maioria de nós) que nos “paternalizem”. Para quem não entendeu ainda, as cotas e as ações afirmativas não são medidas paternalistas do Estado ou de outras instituições, mas uma obrigação política e metodológica no enfrentamento do racismo. Aliás, muito avançaríamos em nossas lutas comuns contra as violências do mundo se todxs pudessem entender que acabar com o racismo exige muito mais que falar dele, que explicitar dados de desigualdades. Também é passo importante a determinação política de construir metodologias práticas. Por isso que tantas vezes indicamos, votamos e escolhemos mulheres negras para estarem em diferentes espaços. Não é porque somos incapazes de perceber outros critérios e que não saibamos que não basta ser negra ou mulher, ou mulher negra. Também compreendemos que, dadas as desigualdades históricas, nem sempre vamos identificar pessoas negras com certos acúmulos exigidos.

Entretanto, para nós o critério racial vai estar sempre presente. E seria um bom exercício de desapego e de mudanças nas estruturas se vocês também puderem considerar esses critérios. Não para sermos sempre “a cota”, mas para irmos construindo outras possibilidades no exercício do poder e configuração do discurso. Então, é saudável para o antirracismo enegrecer as instâncias dos movimentos, as mesas dos seminários, as representações políticas etc. Ao colaborar com isso, vocês demonstram na vida real a disposição de abrir mão dos privilégios raciais, seus e de seus pares.

Também é saudável reconstruir e democratizar as linguagens e a palavra falada e escrita, o que inclui o cuidado de não reproduzir expressões racistas. Não é bobagem quando solicitamos o não uso de expressões que remetem nossa cor à ideia de maldade. Esse é um pedaço do racismo naturalizado e, portanto, não os ofende. Mas a nós tem significado de violência simbólica que se desdobra na vida real.  Se não podem compreender isso, ao menos confiem, politicamente, nos ofendidos.

Não tem outro jeito: nossa conversa, nosso pensamento e nossas pautas e estratégias vão falar do cotidiano de nossa gente. É lá que ela existe e é desde lá que vamos construindo a nossa crítica. Achamos importante – é uma conquista nossa, inclusive -, mas nem sempre precisamos de estatísticas, de estudos aprofundados ou de esplêndidas elaborações teóricas para ver e dizer o quanto nossa juventude é violentada, o quanto nosso povo é massacrado, por exemplo. Uma mulher negra rodeada de pivetes pedindo no sinal é para nós, de consciência negra, um reflexo de toda nossa história, ou da história de outros sobre nós. Nos identificamos, nos indignamos e vamos mostrar e falar sobre essa imagem, porque ela não é pontual. Não para nós. Ela não é reducionista, ela não é focalista; é reflexo do tempo e do lugar cotidiano de nossa gente. E não se trata, necessariamente, de vitimização, mas de leitura política indignada e tendente a movimentar-se. Não queremos que a sociedade chore por nós; queremos que o mundo e as instituições nos respeitem.

Então é favor não nos negar, mas também não nos apadrinhar. Nem se sentir obrigadxs a sempre concordar ou fingir concordar conosco, por receio de ser mal interpretadxs. Se se inteirarem mais da questão racial e de suas complexidades, verão que sua branquitude é tão racial quanto a nossa negritude, e talvez isso nos ajude muito a lidar com nossos desentendimentos. Estaremos cara a cara, e vocês terão mais chances de nos comunicar seu antirracismo. Vimos há muito tempo fazendo esse esforço para dialogar com vocês e com toda a sociedade. Temos muito a dizer; se acharem por bem, não custa perguntar.

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*Militante feminista do Fórum Cearense de Mulheres, Articulação de Mulheres Brasileiras e Instituto Negra do Ceará. 

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Vereador repudia a Mãe D’água e prefeito rebate: “respeito todas as religiões”

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A escultura da Mãe D’água instalada na margem petrolinense do Rio São Francisco, feita por Lêdo Ivo, também responsável pelo Nego D’água que fica nas proximidades da margem de Juazeiro, está sendo alvo de críticas feitas por seguimentos religiosos e até mesmo por políticos de Petrolina que atribuem ao monumento uma apologia à figura mítica de Iemanjá. O preconceito em torno da cultura afrodescendente e o desconhecimento acerca das lendas do Velho Chico estão rendendo uma série de comentários curiosos sobre a obra.
“A Bíblia diz que existe um só Deus e um só senhor. Eu notei que os dias em Petrolina agora estão mais tristes, quando eu passo ali na orla que eu olho para a estátua que fizeram a Iemanjá, eu digo: o que é que está acontecendo em Petrolina? Iemanjá na Umbanda significa a deusa das águas. Isso é uma blasfêmia contra Deus, porque a própria Bíblia Sagrada diz que só existe um Deus”, bradava o vereador Osinaldo Souza agarrado a Bíblia enquanto discursava na tribuna da Câmara Municipal na manhã de hoje (27).
Para o edil que é evangélico, a estátua da Mãe D’água que ele insiste em chamar de Iemanjá, não faz parte da nossa cultura, é uma blasfêmia contra Deus e deve ser retirada da Orla. “Se for para falar de cultura, para que um livro mais cultural do que a Bíblia Sagrada? Vamos falar de cultura e me prove onde Iemanjá é cultura? A figura de Iemanjá nem folclórica é para se falar em cultura. Meu amigo, eu posso dizer, Iemanjá é a profanação do próprio Deus. O primeiro monumento para se chegar a Petrolina é a Iemanjá. Eu venho aqui repudiar a atitude do prefeito Julio Lóssio, eu venho aqui dizer a ele: tire essa estátua ao demônio da orla de Petrolina que nós católicos e evangélicos não vamos aceitar” atestou.
Ao falar em primeira mão sobre o assunto a equipe do Nossa Voz, Lóssio explica que a iniciativa de confeccionar a Mãe D’água foi do próprio Lêdo Ivo. O artista, após a instalação da obra está buscando junto a prefeitura e empresários o custeamento da sua produção.  “Lêdo me disse que tinha uma escultura já pronta e gostaria de colocar no rio. Eu disse que a Prefeitura não pode colocar a escultura no rio porque se trata de área de domínio federal. Pedi que ele procurasse a Capitania, o IBAMA e se eles autorizarem a prefeitura não faria nenhuma objeção”, relatou o prefeito.
Segundo Lóssio, Ivo já havia entregado a Petrolina as esculturas da Bíblia Sagrada e a homenagem aos Pracinhas Brasileiros. Diante dos serviços prestados, não passava pela cabeça do gestor que os comentários gerados em torno da Mãe D’água seriam negativos. “O monumento foi feito em homenagem a uma lenda que é a da Mãe D’água, não é Iemanjá, é a Mãe D’água, a mãe das águas, mãe da vida e isso é uma alusão as fontes. A fonte lá em Minas Gerais que dá sustentação ao rio é chamada de Mãe D’água, ou seja, quem produz a água. Então agora a oposição, que quando Lêdo Ivo fez a primeira escultura dele (a Bíblia) elogiaram o escultor, está inventando que é macumba e que é num sei o que. Eu quero dizer que eu respeito todas as religiões e respeito muito Lêdo Ivo”.
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Jornalismo machista e intelectualmente defasado

Por Cristiane Faustino[1]

Vésperas das eleições e em pleno ano de 2012 do século XXI. Um conhecido jornalista do Estado do Ceará, aliás, vinculado a um dos principais jornais locais, posta no seu blog http://blog.opovo.com.br/blogdoeliomar?s=col%C3%ADrio+do+blog uma foto de várias mulheres de biquíni com o seguinte comentário: “Pois é, neste “Colírio do Blog” especial um desfile de candidatas maravilhosas e que nem precisam fazer discurso para cativar os votos principalmente do eleitorado masculino. Aqui não tem essa de voto nulo”.  Algumas pessoas, dentre elas, algumas mulheres, se manifestam contra a atitude do jornalista, explicitando como esse tipo de jornalismo nos é ofensivo, por reproduzir os velhos estereótipos que nos colocam como seres situados apenas na nossa sexualidade, sendo nosso corpo destituído de cabeça e desprovido de discurso, visto que a simples visão dele provoca a aceitação ou rejeição, pelas pessoas do sexo masculino, é claro. E isso nos bastaria.

Para as pessoas que constroem pensamentos e práticas críticas, que fazem da sua vida em sociedade também um processo de intervenção no mundo, no esforço de transformá-lo num lugar melhor, sem desigualdades e injustiças de diferentes ordens, seja de classe, de raça, de gênero etc., a reação das mulheres é coisa óbvia e bastante legítima. Mas às reações críticas e também construtivas, o jornalista no auge de sua alienação em relação à história das lutas das mulheres por uma democracia democrática, responde com nada menos do que uma velha e rasteira pérola da misoginia: “(…) Então tá. Na próxima vai a foto de uma de vocês! Vamos ver se agrada aos outros milhares de leitores”. Ao sugerir que a queixa dos leitores, e em especial, a das mulheres, se deve ao fato de não serem elas as que estão no tal “Colírio do blog”, mais uma vez nos coloca como seres de mentalidades reduzidas ao desejo de ter nossos corpos admirados pelos homens. E desse modo, demonstra o mais alto grau de atraso intelectual no que se refere à politização — que, aliás, não é coisa recente, e qualquer bom jornalista teria obrigação ética e profissional de saber — das diferenças e desigualdades de gênero, da violência simbólica, dos estereótipos e tudo o mais, que não preciso citar aqui, mas que é fácil pesquisar, dada a vasta produção que versa sobre essas questões.

Esse tipo de expressão machista da mídia e, em especial dos jornalistas que em tese deveriam ter comprometimento com a democratização da vida, já que a sociedade os legitima no manuseio da informação e, portanto, da produção de pensamentos e idéias sobre o mundo, deveria ser absolutamente rejeitada, e por diferentes razões. Dentre elas por reproduzir o machismo, por desconsiderar a capacidade intelectual das mulheres, por nos situar como objeto sexual, por comprometer a democracia, por promover de forma naturalizada a violência simbólica que desde sempre impactou negativamente a vida das mulheres, e é uma das principais responsáveis pela produção da violência sexual, do aprisionamento das mulheres ao destratado mundo reprodutivo, por nos manter nos reles lugar da “sensualização inferiorizada”.

No caso do Blog em questão, é bom que se diga que a denominação “Colírio do blog”  é uma seção onde nos entremeios das notícias sobre o mundo político e econômico — no qual, aparentemente, na visão do jornalista, as mulheres não fazem parte, ou pelo menos não estão em lugar importante — ele posta imagens do que considera “belas mulheres”. Assim, de modo indisfarçadamente machista, o jornalista mantém um lugar para as mulheres, onde a nudez e a sensualidade são exploradas, provavelmente também pra demonstrar sua própria masculinidade.

Dado o caráter “miúdo” desse tipo de pensamento, alguém poderia dizer: não vale a pena se manifestar, é sem “cura”. Talvez tenha razão, porque a cristalização do machismo é o maior pilar do patriarcado racista. Entretanto, nunca é demais dizer que uma intelectualidade defasada e que não se reflete a si mesmo, que se utiliza de sua legitimidade pública para, ao seu bel prazer, disseminar toda sorte de alienação e reprodução de violências e violações é prática repudiável para o bem comum, por se tratar de uma perversão da democracia e da liberdade de expressão. Muito impressiona que um jornal que em muitos momentos e espaços produz informações importantes para a efetivação dos direitos humanos das mulheres, permita que esse tipo de postura seja produzida, reproduzida e legitimada em seu espaço público. Lamentável mesmo. Aproveito aqui pra fazer uma saudação ao jornalismo e aos jornalistas que zelam pelos cuidados éticos e se preocupam com o teor democratizante de seus trabalhos, que atualizam seus saberes e primam pela “desalienação” da vida: saibam, vocês são muito, e cada vez mais, necessários e necessárias!


[1] É Assistente Social, militante do Fórum Cearense de Mulheres e da Articulação de Mulheres Brasileiras, membro do GT Combate ao Racismo Ambiental da Rede Brasileira de Justiça Ambiental e Relatora Nacional da Plataforma Brasileira dos Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais.

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