ONG Fábrica de Imagens produz informativo Especial Consciência Negra

O  mês que se aproxima, Novembro, é marcado pelo dia da Consciência Negra, um momento histórico de muita significância para os negros e negras desse país. “Anualmente, um número cada vez mais significativo de entidades civis, principalmente o movimento negro, tem se mobilizado em todo país, em torno de atividades relativas à participação da pessoa negra na sociedade” (SEPPIR). Pensando nisso, a ONG Fábrica de Imagens produziu um informativo especial dedicado à cultura e pessoa negra, entrevistando movimentos e sujeitos envolvidos na temática da negritude. Confira a entrevista com Emerson Deo Cardoso, cineasta cearense realizador do Curta Metragem “Podem me chamar de Nadí”, que trata dos desafios enfrentados por uma menina negra na infância.

Em 20 de novembro de 1695 morria o líder do maior Quilombo da história do Brasil, Zumbi dos Palmares. Em referência à data, o movimento de negros e negras brasileiro celebra todos os anos o dia da consciência negra.  Dia de rememorar o passado de dores e reinventar um presente novo. Dia de orgulhar-se da origem ancestral de raça que se faz vista na melanina, nos cabelos crespos e/ou nos modos de vivenciar a cultura afro-brasileira. Até a data, apresentaremos no site uma série de reportagens, entrevistas e conteúdos sobre a vida dos negros e negras brasileiros.

Para abrir o especial “Consciência Negra”, entrevistamos o diretor e produtor do filme “Podem me chamar de Nadí”, Déo Cardoso. O filme diz muito da vida das meninas e mulheres negras no Brasil. A personagem principal é uma garotinha de 11 anos como tantas outras no Brasil. Mora na periferia de Fortaleza e nutre uma dependência enorme do seu boné rosa. Todo esse apego porque o boné ajuda a esconder a cabeleira crespa e abundante que nada tem a ver com aquelas das modelos da revista com nome afrancesado. Sabendo disso, os garotos do bairro resolvem ‘aprontar’ e roubam o boné protetor de Nadí. A partir de então, a menina inicia uma odisséia em busca do boné e acaba recuperando a própria auto-estima.Confira a seguir a entrevista com o diretor sobre a forma como os negros e negras são estereotipado e submetidos a padrões de beleza pré-estabelecidos.

1. Porque produzir um filme como esse?

Produzir um filme como esse satisfaz duas necessidades: uma enquanto artista que precisa e tem a necessidade de expressar um ponto de vista sobre o mundo, de maneira sublime e sensível; a outra necessidade é a de gritar para o mundo que toda forma de desrespeito e intolerância, principalemnte nutrida no seio da infância, precisa ser repensada e acabar. Não existe “cabelo ruim”. O que existe são pessoas racistas que disseminam essa ideia.
2. Onde foi e quanto tempo levou para produzir o filme?

O filme “Pode Me Chamar de Nadí” foi inteiramente produzido em Fortaleza. Uma cidade que parece ter nascido para o cinema, por causa de seu clima, de sua geografia, seu povo, suas cores. Uma cidade quente, de pessoas alegres, mas que ainda herdam dos tempos nefastos do coronelismo, certos preconceitos que precisam ser repensados. Foram dois meses de pré-produção (trabalho de escritório) e seis dias de produção no set de filmagens. Depois mais dois meses de edição.O filme foi rodado em vários festivais pelo país e a Nadí ganhou prêmio de melhor atriz infantil na tradicional Jornada Internacional de Cinema da Bahia.

3. Interpretando algo que condiz a realidade de tantas garotinhas que enfrentam essa problemática, como foi a relação de Nadí durante a produção do filme?

A Nadí é minha vizinha, minha irmãzinha e afilhada. Ela participou ativamente de todo processo do filme. Desde a concepção – já que o filme é baseado em fatos reais que aconteciam (e ainda acontecem) com ela com relação às pessoas tirarem sarro com seus cabelos crespos. Então em cima disso, criei uma história. E tudo o que eu fazia eu mostrava pra ela. E ela logo memorizou o roteiro. Me ajudou na construção das falas do diálogo. Dei liberdade total pra ela me ajudar. No set foi uma maravilha. Mostrou-se uma atriz sensacional. Agora tô cuidando pra ela estudar e seguir se expressando.
4. Qual foi a repercussão do filme?

O filme gerou muito debate e emocionou muita gente. mas lembro-me somente de uma menina que assistiu o filme e não gostou. Isso foi nas nossas andanças pelas periferias de Fortaleza. Se não me engano foi lá no Bom Jardim, que uma menina disse não ter gostado do filme porque achou o filme muito mentiroso. Ela estranhou que a Nadí pudesse ser feliz tendo o cabelo “tão ruim” e que só em filme mesmo isso aconteceria. Detalhe: a menina que disse isso tinha os cabelos crespos como os da Nadí. Foi algo que me fez refletir. Somos ensinados a não gostar da nossa cor, do nosso cabelo crespo. O Brasil é o lugar no mundo onde mais se alisa cabelo e onde mais se tinge de loiro. Esses dados são da indústria de cosméticos. Isso mostra o quanto nossa auto-estima é baixa, e o quanto predomina aqui um padrão de beleza europeu e americano.

 

5. Na sua opinião, como produtor, como os negros são representados nas produções de audiovisual?

Os negros aparecem muito em nossa cinematografia. No início, lá nos anos 1920/30, o negro era marginalizado num cinema que não queria mostrar um país “negro e mestiço”. Era um projeto de Brasil branco, e mostrar o negro não condizia com esse projeto. A partir dos anos 1940, com Nelson Pereira dos Santos e seus filmes realistas, como “Rio, 40 Graus” e “Rio, Zona Norte”, o negro passa a ser atuante nos papeis principais. Nas décadas seguintes, com o Cinema Novo capitaneado pelo grande Glauber Rocha (cineasta ícone do movimento), o negro passa a ser transformado em agente revolucionário. Filmes como “Ganga Zumba” e “Quilombo, o Eldorado Negro”, ambos de Cacá Diegues, e “O Santo Guerreiro Contra o Dragão da Maldade”, de Glauber Rocha, mostram negros em papeis de destaque revolucionários. Muito embora, ainda carregando estereótipos ligados à escravidão – o negro revoltado, o negro violento, a negra boazuda, etc. Mas na minha opinião, o que mais me incomoda nessa questão do negro no cinema, não é nem a questão de como ou se o negro está sendo representado na tela, mas se ele está por trás da criação e da concepção das obras artísticas criadas. A verdadeira pergunta que devemos nos fazer é: quantos negros estão dirigindo filmes no Brasil hoje? Quantos negros são roteiristas e produtores? A resposta é simples: pouquíssimos. E os poucos que estão criando ou são anônimos ou já estão fadados a seguirem as cartilhas das empresas onde trabalham (Rede Globo, Globofilmes, etc). Com excessão de alguns cineastas negros que realmente escrevem, dirigem e produzem seus trabalhos de forma independente e expõe sua visão de mundo de forma independente (Joel Zito Araújo, Jéferson De, Leandro Firmino da Hora, dentre outros) a maioria acaba sendo patrocinados por uma elite a reproduzir mais do mesmo quando o assunto é negro no cinema. Basta ver o filme “Ó Paí ó”. O negro baiano totalmente estereotipado, servindo de palhaço pra classe-média branca rir.
6. Até que ponto esse estereótipo de beleza (branco, cabelo liso, alto, magro, etc) pode influenciar a vida dessas pessoas?

É uma verdadeira violência simbólica. Nossas meninas são as que mais tingem os cabelos de loiro e as que mais usam chapinha pra alisar o cabelo em todo o mundo. Sinal de que alguma coisa está errada com nosso povo, e principalmente com quem transmite essa noção de que o ideal de beleza real é o europeu. Culpo a indústria de cosméticos e a indústria da moda, que injetam milhões em publicidade e mídia, formam opiniões nas novelas, etc. Só um cinema, um jornalismo sério, o teatro, e as pessoas em geral pra acabar com isso. Na minha opinião, cada um tem sua beleza, independente de etnia ou classe social. devemos gostar de nós como somos. Devemos sempre falar em “padrões de beleza” e não em “padrão de beleza”.

7. Qual a importância de abordar essa temática no audiovisual para a juventude?

O cinema e a TV são máquinas que produzem pontos de vista. Isso é fato. Se o grosso do que é visto pelos brasileiros são as novelas e os filmes de hollywood que passam na TV aberta, é essa a visão de mundo que ele terá sobre a vida. Se faço um filme que quer discutir o outro lado disso, se filmo uma história que fala de nossos dilemas, da dor e da delícia de sermos o que somos, o mínimo que espero é que as poucas pessoas vejam e saiam do filme pelo menos questionando certas opiniões próprias. Desconstruir certezas para repensar a vida, essa é a importãncia de abordar essa e outras temáticas que afetam nossa juventude.

8. Você tem alguma influência colhida na sua vivência pessoal ou na participação em movimentos sociais relacionados a temática abordada no filme?

Sim e não. Explico: como o tempo que tenho é corrido, acompanho mais pela internet. presencialmente, sempre que posso acompanho as reuniões e as lutas do movimento negro e indígena; os debates do Instituto de Mulheres Negras (Inegra-CE); Sempre que posso eu participo de manifestações e palestras do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Sou um grande admirador desses movimentos, dessas lutas da juventude por um mundo mais justo. Embora é sabido que existem problemas em todas as categorias, pois o ser humano é contraditório por natureza, o que não tira a nobreza e a dignidade de cada movimento social. Se não fossem os movimentos sociais, estaríamos fadados a viver sob o terror das decisões da elite do nosso país e do mundo, sem uma força que equilibre as condutas e os interesses voltados às pessoas mais simples.

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