Arquivo do mês: outubro 2012

Vereador repudia a Mãe D’água e prefeito rebate: “respeito todas as religiões”

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A escultura da Mãe D’água instalada na margem petrolinense do Rio São Francisco, feita por Lêdo Ivo, também responsável pelo Nego D’água que fica nas proximidades da margem de Juazeiro, está sendo alvo de críticas feitas por seguimentos religiosos e até mesmo por políticos de Petrolina que atribuem ao monumento uma apologia à figura mítica de Iemanjá. O preconceito em torno da cultura afrodescendente e o desconhecimento acerca das lendas do Velho Chico estão rendendo uma série de comentários curiosos sobre a obra.
“A Bíblia diz que existe um só Deus e um só senhor. Eu notei que os dias em Petrolina agora estão mais tristes, quando eu passo ali na orla que eu olho para a estátua que fizeram a Iemanjá, eu digo: o que é que está acontecendo em Petrolina? Iemanjá na Umbanda significa a deusa das águas. Isso é uma blasfêmia contra Deus, porque a própria Bíblia Sagrada diz que só existe um Deus”, bradava o vereador Osinaldo Souza agarrado a Bíblia enquanto discursava na tribuna da Câmara Municipal na manhã de hoje (27).
Para o edil que é evangélico, a estátua da Mãe D’água que ele insiste em chamar de Iemanjá, não faz parte da nossa cultura, é uma blasfêmia contra Deus e deve ser retirada da Orla. “Se for para falar de cultura, para que um livro mais cultural do que a Bíblia Sagrada? Vamos falar de cultura e me prove onde Iemanjá é cultura? A figura de Iemanjá nem folclórica é para se falar em cultura. Meu amigo, eu posso dizer, Iemanjá é a profanação do próprio Deus. O primeiro monumento para se chegar a Petrolina é a Iemanjá. Eu venho aqui repudiar a atitude do prefeito Julio Lóssio, eu venho aqui dizer a ele: tire essa estátua ao demônio da orla de Petrolina que nós católicos e evangélicos não vamos aceitar” atestou.
Ao falar em primeira mão sobre o assunto a equipe do Nossa Voz, Lóssio explica que a iniciativa de confeccionar a Mãe D’água foi do próprio Lêdo Ivo. O artista, após a instalação da obra está buscando junto a prefeitura e empresários o custeamento da sua produção.  “Lêdo me disse que tinha uma escultura já pronta e gostaria de colocar no rio. Eu disse que a Prefeitura não pode colocar a escultura no rio porque se trata de área de domínio federal. Pedi que ele procurasse a Capitania, o IBAMA e se eles autorizarem a prefeitura não faria nenhuma objeção”, relatou o prefeito.
Segundo Lóssio, Ivo já havia entregado a Petrolina as esculturas da Bíblia Sagrada e a homenagem aos Pracinhas Brasileiros. Diante dos serviços prestados, não passava pela cabeça do gestor que os comentários gerados em torno da Mãe D’água seriam negativos. “O monumento foi feito em homenagem a uma lenda que é a da Mãe D’água, não é Iemanjá, é a Mãe D’água, a mãe das águas, mãe da vida e isso é uma alusão as fontes. A fonte lá em Minas Gerais que dá sustentação ao rio é chamada de Mãe D’água, ou seja, quem produz a água. Então agora a oposição, que quando Lêdo Ivo fez a primeira escultura dele (a Bíblia) elogiaram o escultor, está inventando que é macumba e que é num sei o que. Eu quero dizer que eu respeito todas as religiões e respeito muito Lêdo Ivo”.
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Jornalismo machista e intelectualmente defasado

Por Cristiane Faustino[1]

Vésperas das eleições e em pleno ano de 2012 do século XXI. Um conhecido jornalista do Estado do Ceará, aliás, vinculado a um dos principais jornais locais, posta no seu blog http://blog.opovo.com.br/blogdoeliomar?s=col%C3%ADrio+do+blog uma foto de várias mulheres de biquíni com o seguinte comentário: “Pois é, neste “Colírio do Blog” especial um desfile de candidatas maravilhosas e que nem precisam fazer discurso para cativar os votos principalmente do eleitorado masculino. Aqui não tem essa de voto nulo”.  Algumas pessoas, dentre elas, algumas mulheres, se manifestam contra a atitude do jornalista, explicitando como esse tipo de jornalismo nos é ofensivo, por reproduzir os velhos estereótipos que nos colocam como seres situados apenas na nossa sexualidade, sendo nosso corpo destituído de cabeça e desprovido de discurso, visto que a simples visão dele provoca a aceitação ou rejeição, pelas pessoas do sexo masculino, é claro. E isso nos bastaria.

Para as pessoas que constroem pensamentos e práticas críticas, que fazem da sua vida em sociedade também um processo de intervenção no mundo, no esforço de transformá-lo num lugar melhor, sem desigualdades e injustiças de diferentes ordens, seja de classe, de raça, de gênero etc., a reação das mulheres é coisa óbvia e bastante legítima. Mas às reações críticas e também construtivas, o jornalista no auge de sua alienação em relação à história das lutas das mulheres por uma democracia democrática, responde com nada menos do que uma velha e rasteira pérola da misoginia: “(…) Então tá. Na próxima vai a foto de uma de vocês! Vamos ver se agrada aos outros milhares de leitores”. Ao sugerir que a queixa dos leitores, e em especial, a das mulheres, se deve ao fato de não serem elas as que estão no tal “Colírio do blog”, mais uma vez nos coloca como seres de mentalidades reduzidas ao desejo de ter nossos corpos admirados pelos homens. E desse modo, demonstra o mais alto grau de atraso intelectual no que se refere à politização — que, aliás, não é coisa recente, e qualquer bom jornalista teria obrigação ética e profissional de saber — das diferenças e desigualdades de gênero, da violência simbólica, dos estereótipos e tudo o mais, que não preciso citar aqui, mas que é fácil pesquisar, dada a vasta produção que versa sobre essas questões.

Esse tipo de expressão machista da mídia e, em especial dos jornalistas que em tese deveriam ter comprometimento com a democratização da vida, já que a sociedade os legitima no manuseio da informação e, portanto, da produção de pensamentos e idéias sobre o mundo, deveria ser absolutamente rejeitada, e por diferentes razões. Dentre elas por reproduzir o machismo, por desconsiderar a capacidade intelectual das mulheres, por nos situar como objeto sexual, por comprometer a democracia, por promover de forma naturalizada a violência simbólica que desde sempre impactou negativamente a vida das mulheres, e é uma das principais responsáveis pela produção da violência sexual, do aprisionamento das mulheres ao destratado mundo reprodutivo, por nos manter nos reles lugar da “sensualização inferiorizada”.

No caso do Blog em questão, é bom que se diga que a denominação “Colírio do blog”  é uma seção onde nos entremeios das notícias sobre o mundo político e econômico — no qual, aparentemente, na visão do jornalista, as mulheres não fazem parte, ou pelo menos não estão em lugar importante — ele posta imagens do que considera “belas mulheres”. Assim, de modo indisfarçadamente machista, o jornalista mantém um lugar para as mulheres, onde a nudez e a sensualidade são exploradas, provavelmente também pra demonstrar sua própria masculinidade.

Dado o caráter “miúdo” desse tipo de pensamento, alguém poderia dizer: não vale a pena se manifestar, é sem “cura”. Talvez tenha razão, porque a cristalização do machismo é o maior pilar do patriarcado racista. Entretanto, nunca é demais dizer que uma intelectualidade defasada e que não se reflete a si mesmo, que se utiliza de sua legitimidade pública para, ao seu bel prazer, disseminar toda sorte de alienação e reprodução de violências e violações é prática repudiável para o bem comum, por se tratar de uma perversão da democracia e da liberdade de expressão. Muito impressiona que um jornal que em muitos momentos e espaços produz informações importantes para a efetivação dos direitos humanos das mulheres, permita que esse tipo de postura seja produzida, reproduzida e legitimada em seu espaço público. Lamentável mesmo. Aproveito aqui pra fazer uma saudação ao jornalismo e aos jornalistas que zelam pelos cuidados éticos e se preocupam com o teor democratizante de seus trabalhos, que atualizam seus saberes e primam pela “desalienação” da vida: saibam, vocês são muito, e cada vez mais, necessários e necessárias!


[1] É Assistente Social, militante do Fórum Cearense de Mulheres e da Articulação de Mulheres Brasileiras, membro do GT Combate ao Racismo Ambiental da Rede Brasileira de Justiça Ambiental e Relatora Nacional da Plataforma Brasileira dos Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais.

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