“Aos Brancos de Luta que não desejam ser racistas: notas de subsídios”

Por Cristiane Faustino*

Aproveitando o ensejo de novembro, gostaria de me dirigir diretamente às pessoas brancas que não desejam ser racistas e que guardam sinceros compromissos e fazem luta pelo fim das desigualdades. Deixo nítido que minhas palavras querem seguir o bom caminho da sinceridade. Antes que alguém pense, não há nenhuma ironia ou tentativa de culpabilização; me inspiro nos encontros que tenho tido com muita gente boa que condena o racismo e é antirracista. Então, modestamente, quero me propor a colaborar. Alerto também que não se trata de uma mera generalização: sou capaz de compreender os contextos e os diversos nos diversos. Mas entender e enfrentar desigualdades e discriminações exige, ironicamente, algum nível de generalização, pois de outro modo, as coisas podem passar batidas, ou por outra, ficar na conta das circunstâncias, onde tudo se justifica.

Primeiro, nós, as pessoas negras organizadas ou que na alegria ou no padecer alimentamos ou pretendemos alimentar nossa consciência negra, somos muito gratas às pessoas brancas que são antirracistas. Só falo de gratidão porque, dada a gravidade da situação de nossa gente, são nobres a solidariedade política e o repúdio ao racismo. No fundo mesmo, acho que isso não deve ser uma mera questão de bondade, mas uma obrigação histórica, um dever político e uma concepção ética libertária. A mim, pelo menos, isso parece condição fundamental para radicalizar na luta contra as opressões raciais. Mas vejam bem: nossa gratidão não nos amarra a vocês e nem pode nos ofuscar na crítica aos seus lugares de privilégios.

Nesse contexto, coisa importante para vocês, eu acho, é reconhecer, sem culpa, seus privilégios. Sejamos todxs solidárixs, mas não neguem que suas histórias também têm cor. É branca. Se vejam na sua cor. Claro, isso pode ser um tanto constrangedor para quem se julga no ápice dos sentidos revolucionários. Mas essa diferença é fundamental para nossas alianças. Assim saberemos que não somos iguais e que nossas diferenças estão também situadas no mundo racista. E vocês, num lugar de privilégio. E isso, minha gente, atinge todas as dimensões da vida, inclusive a política militante de esquerda. Então, vale aproveitar seus privilégios para colaborar na construção de outras possibilidades, inclusive a de fim dos privilégios.

Reparem que nós, pessoas negras de luta, nos tornamos “sobresobrecarregadas” porque temos que saber o que vocês sabem do pensamento e produção de esquerda; temos que saber o que nossos pares elaboram; temos que construir pensamentos e produzir sobre eles. Ou seja, temos que saber dos saberes que vocês, seus intelectuais e seus ancestrais produziram, e temos que saber dos nossos e construir uns tantos outros. E, pelo que tenho percebido, poucos de vocês gastam tempo estudando a produção negra antirracista. Bom, se vocês, como nós, têm pouco tempo, pelo menos têm podido escolher fazer assim, e para nós essa escolha não é possível. Pode ser também que achem que a produção negra não é teoria, mas diagnósticos em “causa própria”.

Compreendo suas preocupações científicas, mas compreendam também que as produções de vocês e seus pares, ao nos negarem e ao invisibilizarem seus privilégios, se tornam também uma defesa própria. Seus conhecimentos, suas epistemologias legitimadas e reconhecidas, em muito negligenciam sobre o racismo e, portanto, não o enfrentam devidamente. Então, temos mais problemas científicos e metodológicos do que pensamos…

Também nos sobrecarregamos nas lutas coletivas ampliadas, porque, por exemplo, embora tenhamos inimigos comuns, quando se trata do racismo precisamos construir o debate e nos enfrentar também com vocês. Às vezes acho que muitos se acostumaram a se achar libertários e cegaram quanto às suas próprias condições e relações com os outros, ou melhor, não veem que não se apartam delas ao querer mudar o mundo. A expressão popular “se enxergar” cabe bem aqui.

Tudo isso se eleva ao cubo, quando somos mulheres negras e conscientes disso.

É preciso também reconhecer que na maioria das vezes vocês não têm como perceber ou sentir o que a gente sente, e que, portanto, é compreensível que algumas opressões que por ventura denunciamos nos espaços onde estamos todos juntos não entrem nas suas cabeças. Vocês decerto se surpreendem, e podem até classificar como mania de perseguição ou incapacidade de compreender o contexto. Nesses casos, é muito importante acionar aquela confiança política básica para as alianças. E saibam: quase sempre há verdade nessas denúncias. É provável que sua condição racial nunca tenha aparecido como problema para vocês. Para nós tem sido. E essa diferença é o racismo “vivo e vívido”.

Se às vezes nosso jeito é meio desbocado, nossa postura é meio despojada, isso não significa que não somos sujeitos e não temos raciocínio lógico. Então, vez em quando é bom sair da sua própria lógica para entender o outro. E imaginem quantas vezes temos que sair das nossas, nos enquadrar nas suas, para sobreviver entre vocês! Mas que bom que é entre vocês, e posso dizer isso tranquilamente.

Caso nos percebam meio arrogantes, saibam que tivemos que construir nossa postura, senão nem vocês nem ninguém nos perceberiam. Mas a maioria de nós é do bem. Digo a maioria de nós, porque somos tão seres humanos quanto os outros. Então, entre nós há quem não seja bom.  No fundo, sequer podemos falar em ser humano “bom geral”. Óbvio que isso não é pela cor e raça. Talvez até seja, às vezes, porque o mundo tanto nos violenta que nos obrigamos a enfrentá-lo nos mesmos moldes! E é bom não esquecer que a violência racial dos brancos só assim o é por sua cor e raça. Não esqueçam nunca que quando nos referimos à cor e raça estamos, sobretudo, tratando de categorias políticas.

Isso também é para dizer que não precisam nos adotar. Somos perfeitamente capazes e não precisamos (pelo menos a maioria de nós) que nos “paternalizem”. Para quem não entendeu ainda, as cotas e as ações afirmativas não são medidas paternalistas do Estado ou de outras instituições, mas uma obrigação política e metodológica no enfrentamento do racismo. Aliás, muito avançaríamos em nossas lutas comuns contra as violências do mundo se todxs pudessem entender que acabar com o racismo exige muito mais que falar dele, que explicitar dados de desigualdades. Também é passo importante a determinação política de construir metodologias práticas. Por isso que tantas vezes indicamos, votamos e escolhemos mulheres negras para estarem em diferentes espaços. Não é porque somos incapazes de perceber outros critérios e que não saibamos que não basta ser negra ou mulher, ou mulher negra. Também compreendemos que, dadas as desigualdades históricas, nem sempre vamos identificar pessoas negras com certos acúmulos exigidos.

Entretanto, para nós o critério racial vai estar sempre presente. E seria um bom exercício de desapego e de mudanças nas estruturas se vocês também puderem considerar esses critérios. Não para sermos sempre “a cota”, mas para irmos construindo outras possibilidades no exercício do poder e configuração do discurso. Então, é saudável para o antirracismo enegrecer as instâncias dos movimentos, as mesas dos seminários, as representações políticas etc. Ao colaborar com isso, vocês demonstram na vida real a disposição de abrir mão dos privilégios raciais, seus e de seus pares.

Também é saudável reconstruir e democratizar as linguagens e a palavra falada e escrita, o que inclui o cuidado de não reproduzir expressões racistas. Não é bobagem quando solicitamos o não uso de expressões que remetem nossa cor à ideia de maldade. Esse é um pedaço do racismo naturalizado e, portanto, não os ofende. Mas a nós tem significado de violência simbólica que se desdobra na vida real.  Se não podem compreender isso, ao menos confiem, politicamente, nos ofendidos.

Não tem outro jeito: nossa conversa, nosso pensamento e nossas pautas e estratégias vão falar do cotidiano de nossa gente. É lá que ela existe e é desde lá que vamos construindo a nossa crítica. Achamos importante – é uma conquista nossa, inclusive -, mas nem sempre precisamos de estatísticas, de estudos aprofundados ou de esplêndidas elaborações teóricas para ver e dizer o quanto nossa juventude é violentada, o quanto nosso povo é massacrado, por exemplo. Uma mulher negra rodeada de pivetes pedindo no sinal é para nós, de consciência negra, um reflexo de toda nossa história, ou da história de outros sobre nós. Nos identificamos, nos indignamos e vamos mostrar e falar sobre essa imagem, porque ela não é pontual. Não para nós. Ela não é reducionista, ela não é focalista; é reflexo do tempo e do lugar cotidiano de nossa gente. E não se trata, necessariamente, de vitimização, mas de leitura política indignada e tendente a movimentar-se. Não queremos que a sociedade chore por nós; queremos que o mundo e as instituições nos respeitem.

Então é favor não nos negar, mas também não nos apadrinhar. Nem se sentir obrigadxs a sempre concordar ou fingir concordar conosco, por receio de ser mal interpretadxs. Se se inteirarem mais da questão racial e de suas complexidades, verão que sua branquitude é tão racial quanto a nossa negritude, e talvez isso nos ajude muito a lidar com nossos desentendimentos. Estaremos cara a cara, e vocês terão mais chances de nos comunicar seu antirracismo. Vimos há muito tempo fazendo esse esforço para dialogar com vocês e com toda a sociedade. Temos muito a dizer; se acharem por bem, não custa perguntar.

*Militante feminista do Fórum Cearense de Mulheres, Articulação de Mulheres Brasileiras e Instituto Negra do Ceará. 

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